EU, VOCÊ, NÓS
"Um galo sozinho não tece uma manhã:
Ele precisará sempre de outros galos (...)
Que com muitos outros galos se cruzem
Os fios de sol de seus gritos de galo
Para que a manhã, desde uma teia tênue
Se vá tecendo, entre todos os galos"
João Cabral de Melo Neto
"Cada um por si, cem por cento"
Arnaldo Antunes
Raros são os seres do reino animal que não vivem em grupos.
Os pássaros voam em
bandos, os peixes nadam em cardumes, os mamíferos se
deslocam em grupos. A
existência em grupo permite aos seres vivos seu desenvolvimento
e sua
reprodução, em um movimento contínuo de defesa e de
manutenção das espécies. O
meio no qual cada espécie se desenvolve é fundamental para
sua sobrevivência,
podendo favorecê-la, dificultá-la ou mesmo extingui-Ia.
Na evolução de cada ser vivo, complexas relações entre o
ambiente e as espécies
se estabelecem: para viver, abelhas precisam de flores e
estas se reproduzem
graças ao trabalho destes insetos; macacos se alimentam de
frutas que nascem em
solo fértil; morcegos precisam da escuridão; ursos, do frio,
e assim por diante.
Sabemos hoje, melhor do que nunca, que, embora a natureza
sela poderosa e
"sábia", seu equilíbrio é frágil. Os seres vivos
se constituem em íntima relação
uns com os outros, o que faz com que a alteração das
condições de existência de
uma espécie se reflita na vida de outras.
Ao contrário de outros animais, os seres humanos
estabeleceram, ao longo de
milênios, relações particulares com a natureza e com os seus
pares. O
agrupamento dos seres humanos permitiu não somente a
manutenção de sua espécie,
mas a sua própria evolução e a transformação da natureza.
Se, a princípio, o
homem vivia para buscar na natureza seu alimento e proteção,
foi por meio da
criação de instrumentos e métodos cada vez mais elaborados e
eficazes que ele
pôde aprender a domar ou a se submeter às forças naturais e
a criar condições
mais favoráveis à sua existência.
O filhote do homem, mais do que o de qualquer outro animal,
necessita de longos
cuidados para sobreviver. A vida em grupo é imprescindível
para seu
desenvolvimento: é com o outro que aprendemos a nos
alimentar, a caminhar, a nos
comunicar, a buscar satisfação e a evitar o sofrimento, é o
outro que nos
ensina a (con)viver. Ao contrário de outros animais, diz
Rochex (1995, p. 26),
não basta que os seres humanos nasçam biologicamente; para
viver sua condição
humana, é preciso que nasçam uma segunda vez. Na verdade, é
por meio do convívio
social que o sujeito pode existir e participar daquilo que
define sua
humanidade: ter um lugar social, uma função, fazer parte de
uma cultura que o
antecede, ser alguém que pode se expressar e transformar a
realidade ao seu
redor.
Em todas as épocas e lugares, os homens definiram regras,
valores e normas para
conviverem. Estas regras permitiram que as pessoas pudessem
criar formas de
comunicação, estabelecer formas de intercâmbio para
satisfazerem suas
necessidades. Nem sempre os acordos são possíveis, muitas
vezes as diferenças se
sobrepõem à capacidade de entendimento, originando conflitos
de toda ordem. No
entanto, é somente administrando as diferenças no convívio
social que se torna
possível viver em harmonia com nossos semelhantes.
No confronto e na convivência com os outros é que cada grupo
social aprende,
sobretudo, o sentido das coisas e do mundo. Para viver, o
homem atribui sentido
à sua vida, às suas ações, àquilo que o cerca. Assim, o
barulho de um trovão
terá um significado diferente para um índio do Amazonas,
para um agricultor no
sertão ou para um homem da cidade, de acordo com o momento
ou situação em que
esses sujeitos vivem. Da mesma forma, um gesto qualquer,
corno o de presentear
alguém, está determinado pelo significado que lhe é
atribuído em cada época ou
cultura, por exemplo, é sinal de falta de educação, para os
japoneses, abrir um
presente na frente de quem o ofereceu, mas, para os
brasileiros em geral, deixar
de abri-lo ou demonstrar qualquer desagrado ao recebê-lo
poderia ofender a
pessoa que nos presenteou.
Às vezes, em um mesmo agrupamento social, como em uma
cidade, encontramos
grandes diferenças de interpretação do mundo entre os
diversos grupos com os
quais convivemos; basta pensarmos na linguagem ou na forma
de se alimentar,
típicas de vários seguimentos sociais: as gírias faladas
pelos surfistas são
deferentes daquelas usadas pelos grafiteiros; o almoço de
domingo em um bairro
italiano reúne a família para comer uma lasanha, enquanto
que em um outro é mais
habitual que os amigos se reúnam para fazer um churrasco. É
no viver cotidiano
que aprendemos, desde muito pequenos, a ler nos gestos, nas
palavras e nas ações
o que as pessoas nos dizem e o que dizemos aos outros.
(Texto extraído de ONG: espaço de convivência. São Paulo: CENPEC, 1999. (Educação e participação do CENPEC)