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Textos e Artigos
Novos tempos
Daniela Bertocchi Seawright
Conversando com alguns professores sobre o uso educativo das listas de discussão, pude perceber que vários deles já utilizam ferramentas de Internet para ministrar algumas aulas e, de um modo geral, estimular a cultura de participação entre a comunidade escolar. Existe sim, por parte de muitos professores, coordenadores e diretores a vontade de sair do discurso e entrar na prática digital.
Percebo, neste sentido, que diversos profissionais da educação e comunicação, assim como eu, têm essa vontade porque entendem os tempos atuais como algo mais próximo da idéia de Kairós do que do conceito de Kronos (foto). Explico. Kronos é o tempo grego "criado" pelo homem, com dias, meses e anos. Podemos entendê-lo como finito, linear, metódico, mensurado, mecânico, controlado, igual para todos. Daí o termo "cronológico". Já Kairós é o tempo divino do Olimpo, aquele que confere significado aos acontecimentos da vida. Ao contrário do primeiro, é infinito, não-linear, espiralado, circular. Um é efêmero. O outro, eterno.
Enxergamos aí uma certa semelhança entre a idéia de Kronos e o esquema escolar tradicional fechado aos novos estudos e pesquisas: com conteúdos seqüenciais, seriados, fechados, inflexíveis, trabalhados em ritmos fixos, massificados. Cada conteúdo na sua gaveta. E cada gaveta manipulada em determinada hora por um professor-expositor de informações. Isso conforme o andar dos ponteiros do relógio e o apito do sinal. Sem sincronicidade ou possibilidades de interação com o aluno-receptor-passivo.
Por um outro lado, sentimos que esse nosso mundo pós-moderno aponta para uma sala de aula mais hipertextual — mais próxima do conceito de Kairós, portanto. Em que o conteúdo é interdisciplinar, flexível, com múltiplas conexões. Os alunos, por sua vez, são interativos, conceptores. Percorrem caminhos e constroem conhecimento sempre a partir das provocações de professores-formuladores de problemas. Educadores que assumem o papel de mobilizadores das inteligências múltiplas e coletivas.
Entendemos que a escola necessite, neste sentido, "passar de um tempo para outro", como outros setores já o fizeram ou estão fazendo. Daí entrar na era digital. A mudança de paradigma é complexa, obviamente. Envolve questões complicadas como a da falta de computadores, cursos de capacitação e vontade. Há problemas de exclusão digital e pressões econômicas. O processo exige dos governos políticas públicas adequadas. Isso sem falar nas questões de ordem tecnológica, trabalhista, ideológica, cultural, psicológica entre outras nada menos difíceis. Mas nos parece que ultrapassar a ponte e chegar na era digital é um processo inevitável.
Por conta desta reflexão que neste momento se fez necessária, o "Informática na Escola" trará na próxima quinzena o relato da educadora Sônia Regina Bertocchi, professora de uma escola pública paulista que decidiu aprender linguagem Html e montar seu próprio site para ministrar aulas — tomou essa iniciativa há cinco anos, em 1997, quando o ProInfo, só para se ter uma idéia, estava começando a ser implantado no País. A professora contará com suas palavras como contornou obstáculos e, dentro do ambiente escolar, desenvolveu uma série de projetos. Na seqüência, a coluna continuará trazendo dicas, entrevistas e informações úteis na área de educação e novas tecnologias. Fica aí o convite ao diálogo e à interatividade.
Curtas
* Depois de nove anos de estudos, um aluno "bom" ou "médio" retém apenas 20% das informações transmitidas pelos professores. Os mais "fracos", entre 10% e 15%. A conclusão é do Instituto da Inteligência de Portugal e foi baseada na análise de pesquisas aplicadas com 600 jovens. "Os jovens têm acesso a muito mais informação, mas muitos professores não os ensinam a geri-la", afirmou o diretor da instituição, Nélson Lima, em entrevista ao jornal Portugal Diário. As informações são do jornal on line Akademia.
* "A Internet aumentou entre 15% e 20% o rendimento de meus alunos". A frase é do professor da Universidade do Texas (EUA) Wayne Danielson (foto). "Também estou mais acessível: os estudantes me encontram tanto presencialmente como na rede", completa Danielson. O educador, especialista em mesclar o método tradicional de ensino com o eletrônico, afirmou que seus 140 alunos acessaram 9 mil vezes seu site no último semestre. As informações são da Universidade de Navarra, Espanha.
Bibliografia: CHEVALIER, J. GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.
RAMAL, A.C. Educação na Cibercultura: Hipertextualidade, Leitura, Escrita e Aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2002. SILVA, M. Sala de Aula Interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2001.
01/07/2002
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